Afinal, existe design neutro?
- Vanessa Oliveira
- 28 de abr.
- 3 min de leitura
Eu sei, parece um assunto estranho para se tratar em um primeiro artigo, mas acredito que isso já dê a vocês um gostinho do que desejo trazer neste blog.
Neste fim de semana (25 e 26/04/2026), participei do workshop TypeLab, com o designer
Marcelo Kimura e o designer de tipos Matheus Mendes. Foi uma aula interessante, que percorreu diversos aspectos do universo da tipografia, desde sua história até sua técnica e prática.
Durante a aula do primeiro dia, enquanto falávamos sobre as categorias tipográficas e passávamos pelas sans-serif, foi mencionada a tão querida Helvetica, junto da pretensão de seu criador em desenvolver uma “tipografia neutra”.
Ao ouvir essa frase, meu cérebro entrou em estado de alerta, ansiando para que os mentores trouxessem algum tipo de debate sobre esse tema. Afinal de contas, existe design neutro? Infelizmente, não obtive esse debate no TypeLab, mas o questionamento reacendeu em mim a necessidade de discutir design além do ambito mercadológico.
Há um tempo fui invadida pelo desejo incessante de entrar para o mestrado. Sempre foi meu sonho me tornar professora acadêmica, mas, sobretudo, sempre tive muita ânsia de estudar as nuances dessa área que tanto amo. E foi nesse processo de busca que me deparei com a discussão sobre racismo tipográfico (um tema excelente para tratarmos em outro momento).
Lendo mais sobre o assunto, encontrei diversos textos que apontavam que a chamada “neutralidade” no design, muitas vezes, não é neutra, mas sim alinhada a padrões eurocêntricos, higienizados e historicamente consolidados. Ao prestarmos atenção, percebemos que esses padrões não estão apenas na tipografia. Eles se repetem nos layouts, ambientes, nas roupas e até mesmo nas cores...
No início deste ano, uma discussão chamou a atenção no universo do design: como de costume, a Pantone anunciou a aguardada cor do ano de 2026. Para a surpresa de muitos, a escolha foi a Cloud Dancer, ou, em outras palavras, o branco, o neutro.

A justificativa da marca foi a de trazer uma sensação de calma e recomeço em um contexto marcado pelo excesso de estímulos visuais e informacionais. Ainda assim, surgiram questionamentos que apontavam uma possível desconexão com as urgências sociais atuais.
A cor do ano da Pantone exerce forte influência nas tendências de moda e design, muitas vezes orientando o tom das comunicações visuais ao longo do ano. Mas fica a pergunta: a quem interessa que esse tom seja neutro?
E de certa forma, esse mesmo movimento pode ser observado em outros espaços.
Nos últimos anos, a tendência clean girl ganhou muito espaço no guarda-roupa feminino. Por mais que essa estética se alinhe pouco com um país tropical, com temperaturas batendo os 40ºC, ela vem sempre acompanhada de um discurso de elegância e boa aparência. Interessante...
Tanto a Helvetica, quanto a Cloud Dancer e a clean girl, carregam a ideia de silêncio. Elas não se posicionam, não exprimem opinião. Mas aí está o ponto ao qual deveríamos, como comunicadores, nos atentar, pois a omissão também é um posicionamento. Será que essa neutralidade não é, na verdade, uma forma de rejeição ao que não está de acordo com o padrão estabelecido? Ou uma forma de enquadrar tudo aquilo que foge do padrão branco como “exótico”?
Para a frustração de muitos (a minha, inclusive), não busco responder essa questão aqui. Precisaria de algumas boas laudas para isso e, ainda assim, poderia não chegar a lugar algum. Mas acredito que seja um debate importante para termos ao longo dessa jornada, e para pensarmos se o design pode, sim, ser neutro ou se nosso design está comunicando coisas sem mesmo percebermos.




